17.12.08

de “CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLÓGICO

Caos

O caos nunca morreu. Bloco primordial não esculpido, monstro único idolatrável, inerte e espontâneo, mais ultravioleta que qualquer mitologia (como as sombras antes da Babilônia), a original e indiferenciada singularidade-do-ser ainda irradia serena como os galhardetes negros dos Assassinos, aleatória e perpetuamente embriagada.

O caos vem antes de todos os princípios de ordem e entropia, não é nem um deus nem uma larva, seus tolos desejos abarcam e definem toda coreografia possível, tudo éteres e flogistons sem sentido: suas máscaras são cristalizações de sua própria ausência de rosto, como nuvens.

Tudo na natureza é perfeitamente real, incluindo a consciência, nãoabsolutamente nada com o que se preocupar. Não apenas as correntes da Lei foram quebradas, elas nunca existiram; demônios nunca protegeram as estrelas, o Império nunca começou, Eros nunca deixou a barba crescer.

Não, escute, o que aconteceu foi isto: mentiram para você, te venderam idéias de bem e mal, te deram desconfiança de seu corpo e vergonha de sua profetização do caos, inventaram palavras de nojo para o seu amor molecular, te hipnotizaram com desatenção, te entediaram com a civilização e suas emoções usurárias.

Não há transformação, nãorevolução, nãoluta, nãocaminho; você é o monarca de sua própria pelesua liberdade inviolável aguarda por ser complementada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política do sonho, urgente como o azul do céu.

Repelir todos os direitos ilusórios e hesitações da história requer a economia de uma lendária Idade da Pedraxamãs e não padres, bardos e não senhores, caçadores e não polícia, coletores da indolência paleolítica, gentis como sangue, ficando nus por um sinal ou pintados como pássaros, equilibrados na onda da presença explícita, o agora e sempre sem medição.

Agentes do caos lançam olhares flamejantes a qualquer coisa ou a qualquer um capaz de testemunhar sua condição, sua febre de lux et voluptas. Estou desperto apenas em relação ao que amo e desejo ao ponto do terrortudo mais é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda no lugar de cérebro, tédio sub-reptiliano de regimes totalitários, censura banal e dor inútil.

Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do amour fou, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, com as maneiras de bárbaros, irritados com obsessões, desempregados, sensualmente transtornados, anjos-lobos, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos e significados.

Aqui estamos rastejando nas rachaduras entre os muros da igreja estado escola e fábrica, todos os monolitos paranóicos. Cortados da tribo pela nostalgia feroz nós cavamos um túnel atrás de palavras perdidas, bombas imaginárias.

O último feito possível é aquele que define a percepção em si própria, um cordão dourado invisível que nos conecta: dança ilegal nos corredores do tribunal. Se eu tivesse que te beijar aqui, eles chamariam isso de ato de terrorismoentão vamos levar nossas pistolas para cama e acordar a cidade à meia-noite como bandidos bêbados celebrando com uma fuzilaria a mensagem do gosto do caos.



Terrorismo Poético


Estranhas
danças em saguões de bancos 24 horas. Espetáculos pirotécnicos não-autorizados. "Land-art", "earth-works" como bizarros artefatos alienígenas esparramados em Parques do Estado. Invada casas, mas ao invés de roubar deixe objetos Poético-Terroristas. Seqüestre alguém e faça-o feliz.


Escolha alguém ao acaso e convença-o de que ele é o herdeiro de uma enorme, inútil e incrível fortuna – digamos 5000 milhas quadradas na Antártica, ou um velho elefante de circo, ou um orfanato em Bombaim, ou uma coleção de manuscritos alquímicos. Mais tarde ele perceberá que por alguns poucos momentos acreditou em algo extraordinário e talvez seja levado, como resultado, a buscar algum modo de existência mais intenso.

Coloque placas de metal comemorativas em lugares (públicos ou privados) onde você experimentou uma revelação ou teve uma experiência sexual particularmente satisfatória, etc.


Fique
nu por um sinal.


Organize uma
greve em sua escola ou local de trabalho tendo por base o fato de que ambos não satisfazem sua necessidade de indolência e beleza espiritual.

A grafitagem emprestou alguma graça aos feios metrôs e aos rígidos monumentos públicosarte poético-terrorista também pode ser criada para locais públicos: poemas rabiscados em lavatórios de tribunal, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob os limpadores de pára-brisa de carros estacionados, Slogans em Letras Grandes colados em paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários aleatórios ou escolhidos (fraude postal), transmissões de rádio piratas, cimento fresco...


A
reação da audiência ou o choque estético produzido pelo Terrorismo Poético deve ser pelo menos tão forte quanto a emoção do terrorrepugnância poderosa, excitação sexual, temor supersticioso, súbito arroubo intuitivo, angústia dadaesca – não importa se o Terrorismo Poético tem por alvo uma ou várias pessoas, não importa se ele é "assinado" ou anônimo: se ele não mudar a vida de alguém (além do artista), ele falha.


Terrorismo Poético é um ato em um Teatro da Crueldade que não tem palco, não tem fileiras de assentos, não tem bilhetes e não tem paredes. A fim de funcionar totalmente, o Terrorismo Poético deve estar categoricamente divorciado de todas as estruturas convencionais de consumo de arte (galerias, publicações, mídias). Até mesmo as táticas de guerrilha Situacionista de teatro de rua talvez estejam muito bem conhecidas e esperadas agora.


Uma requintada
sedução conduzida não apenas pela causa da satisfação mútua, mas também como um ato consciente em uma vida deliberadamente bela – pode ser o Terrorismo Poético derradeiro. O Terrorista Poético comporta-se como um trapaceiro cujo objetivo não é dinheiro, mas MUDANÇA.


Não faça Terrorismo Poético para outros artistas, faça-o para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite a política, não fique por perto para debater, não seja sentimental; seja rude, corra riscos, vandalize apenas o que deve ser desfigurado, faça algo de que as crianças se lembrarão por toda a vidamas não seja espontâneo a não ser que a Musa do Terrorismo Poético tenha te possuído.


Vista-se. Deixe
um nome falso. Seja legendário. O melhor Terrorismo Poético é contra a leimas não seja pego. Arte como crime; crime como arte.



Arte Sabotagem

A arte-sabotagem esforça-se por ser perfeitamente exemplar mas ao mesmo tempo retém um elemento de opacidadenão propaganda política mas choque estético – aterradoramente direta ainda que também sutilmente angulosa – ação-como-metáfora.

Arte-sabotagem é o lado negro do Terrorismo Poético – criação-através-da-destruição – mas não pode servir a nenhum Partido, nem a nenhum niilismo, nem mesmo à própria arte. Assim como o banimento da ilusão amplia a consciência, a demolição da ferrugem estética adoça o ar do mundo do discurso, do Outro. Arte-sabotagem serve apenas à consciência, à atenção, ao despertar.

Arte-sabotagem vai além da paranóia, além da desconstrução – a crítica derradeiraataque físico à arte ofensiva – jihad estético. A menor mancha de egoísmo mesquinho ou mesmo de gosto pessoal estraga sua pureza e vicia sua força. Arte-sabotagem não pode nunca buscar o poderapenas liberá-lo.

Obras de arte individuais (mesmo as piores) são amplamente irrelevantes – Arte-sabotagem busca danificar instituições que usam arte para diminuir a consciência e lucrar pela ilusão. Este ou aquele poeta ou pintor não podem ser condenados por falta de visãomas Idéias malignas podem ser atacadas através dos artefatos que eles geram. MUZAK é desenhada para hipnotizar e controlarseu maquinário pode ser destruído.

Queimas públicas de livrospor que caipiras de direita e oficiais da Alfândega deveriam monopolizar esta arma? Romances sobre crianças possuídas por demônios; a lista de bestsellers do New York Times; tratados feministas contra a pornografia; livros escolares (especialmente Estudos Sociais, Educação Moral e Cívica, Saúde); pilhas do New York Post, Village Voice e outros jornais de supermercado; coletâneas de publicações cristãs; uns poucos romances da Harlequin – uma atmosfera festiva, garrafas de vinho e baseados passados de mão em mão em uma clara tarde de outono.

Jogar dinheiro na Bolsa de Valores era Terrorismo Poético bem decente – mas destruir o dinheiro teria sido boa Arte-sabotagem. Apoderar-se de uma transmissão de TV e transmitir uns poucos minutos pirateados de arte Caota incendiária constituiria uma façanha de Terrorismo Poético – mas simplesmente explodir a torre de transmissão seria Arte-sabotagem perfeitamente adequada.

Se certas galerias e museus merecem um ocasional tijolo em suas vidraçasnão destruição, mas um solavanco na complacênciaentão o que dizer sobre BANCOS? Galerias transformam beleza em mercadoria, mas bancos transmutam Imaginação em fezes e débito. O mundo não ganharia um grau de beleza com cada banco que se pudesse fazer tremer... ou cair? Mas como? Arte-sabotagem deveria provavelmente ficar longe da políticatão entediante) – mas não dos bancos.

Não faça piquete – vandalize. Não proteste – desfigure. Quando a feiúra, o design pobre e o desperdício estúpido são forçados sobre você, torne-se luddita, jogue seu sapato nas obras, retalie. Esmague os símbolos do Império em nome de nada além do desejo do coração pela graça.

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de “
COMUNICADOS DA ASSOCIAÇÃO PARA ANARQUIA ONTOLÓGICA




COMUNICADO # 1 (PRIMAVERA 1986)

I. Slogans e Motes para Grafite em Metrô e Outros Propósitos


COSMOPOLITISMO
SEM RAÍZES


TERRORISMO POÉTICO


(
para rabiscar ou colar em anúncios de propaganda:)

ESTE É O SEU VERDADEIRO DESEJO


MARXISMO-STIRNERISMO

EM GREVE POR INDOLÊNCIA E BELEZA ESPIRITUAL


CRIANÇAS TÊM BELOS PÉS


AS
CORRENTES DA LEI FORAM QUEBRADAS


PORNOGRAFIA TÂNTRICA


ARISTOCRATISMO
RADICAL


GUERRILHAS URBANAS DE LIBERTAÇÃO DOS GAROTOS


FANÁTICOS XIITAS IMAGINÁRIOS


BOLO'BOLO


SIONISMO GAY

(SODOMA PARA OS SODOMITAS)


UTOPIAS PIRATAS


O
CAOS NUNCA MORREU


Alguns destes são slogans "sinceros" da Associação para Anarquia Ontológicaoutros intentam elevar a apreensão pública e receiosmas nós não estamos certos de qual é qual. Agradecimentos a Stalin, Anon., Bob Black, Pir Hassan (haja paz sobre seu nome), F. Nietzsche, Hank Purcell Jr., "P.M.," e Irmão Abu Jehad al-Salah do Templo Mouro de Dagon.



II. Algumas
Idéias Poético-Terroristas Ainda Tristemente Definhando no Reino da "Arte Conceitual"


1.
Entre na área de caixas eletrônicos do Citibank ou Chembank, durante o horário de maior movimento, cague no chão e saia.


2.
Primeiro de Maio de 1986 em Chicago: organize uma procissão "religiosa" pelos "Mártires" de Haymarket – enormes faixas com retratos sentimentais, emoldurados por coroas de flores, com lantejoulas e fitas, carregados por penitentes vestidos com togas e capuzes pretos em estilo KKKatólico – ultrajantes acólitos televisivos afetados, com incenso e água benta, espargem a multidãoanarquistas com cinzas espalhadas pelos rostos se auto-flagelam com pequenos açoites e chicotesum "Papa" com roupão preto abençoa pequenos caixões simbólicos, reverentemente carregados até o Cemitério por punks chorando. Tal espetáculo deverá ofender praticamente todo mundo.


3. Cole
em locais públicos cópias xerox de uma foto de um belo menino de 12 anos, nu e se masturbando, claramente intitulado: A FACE DE DEUS.


4. Envie anonimamente
pelo correio "bênçãos" mágicas elaboradas e requintadas para pessoas ou grupos que você admira, por exemplo, por sua política, ou espiritualidade, ou beleza física, ou sucesso no crime, etc. Siga o mesmo procedimento geral delineado na Seção 5 abaixo, mas utilize uma estética de boa sorte, felicidade ou amor, o que for mais apropriado.

5. Invoque uma
terrível maldição sobre uma instituição maligna, como o New York Post ou a companhia MUZAK. Uma técnica adaptada dos feiticeiros malásios: envie para a Companhia um pacote contendo uma garrafa, fechada com rolha e selada com cera preta. Dentro: insetos mortos, escorpiões, lagartos e afins; um saco contendo terra de cemitério ("gris-gris" na terminologia HooDoo americana) junto com outras substâncias nocivas; um ovo, atravessado por pregos de ferro e alfinetes; e um manuscrito no qual um emblema é desenhado.


(
Este yantra ou veve invoca o Djinn Negro, a sombra negra do Eu. Detalhes completos podem ser obtidos da Associação para Anarquia Ontológica). Uma nota anexa explica que a feitiçaria foi enviada contra a instituição e não contra indivíduosmas a não ser que a instituição cesse de ser maligna, a maldição (tal qual um espelho) começará a infectar o local com fortuna nociva, um miasma de negatividade. Prepare uma “circular” explicando a maldição e creditando-a em nome da Sociedade Americana de Poesia. Envie pelo correio cópias desse texto para todos os empregados da instituição e para uma mídia selecionada. Na noite anterior à chegada dessas cartas, cole nas dependências da instituição cópias xerox do emblema do Djinn Negro, onde possam ser vistas por todos os empregados que chegarem na manhã seguinte para trabalhar.


(Agradecimentos a Abu Jehad
novamente e a Sri Anamananda – o Castelão Mouro da Torre do Clima de Belvedere – e outros camaradas da Zona Autônoma do Central Park e do Templo Número 1 do Brooklyn)

COMUNICADO #2


O
Memorial Bolo Kallikak e Caos Ashram: Uma Proposta


Fomentando uma
obsessão por trailers Airstream – aquelas clássicas miniaturas de dirigíveis sobre rodas – e também Pine Barrens de Nova Jersey, enorme terra afastada perdida de riachos arenosos e pinheiros de alcatrão, brejos de oxicoco e cidades fantasmas, população em torno de 14 por milha quadrada, estradas empoeiradas cobertas por samambaias, cabanas com a estrutura quebrada e casas móveis enferrujadas isoladas com carros queimados nos jardins da frente

terra dos míticos Kallikaks – famílias de Piney estudadas por geneticistas nos anos 1920 para justificar a esterilização da população rural pobre. Alguns Kallikaks casaram-se bem, prosperaram e emburguesaram graças a bons genesoutros, entretanto, nunca tiveram empregos de verdade, mas viveram fora nos bosquesincesto, sodomia, deficiências mentais aos montesfotos retocadas para fazê-los parecerem vagos e morososdescendentes de índios vagabundos, mercenários hessianos, contrabandistas de rum, desertores – degenerados lovecraftianos


ao
pensar nisso, os Kallikaks podem muito bem ter produzido Caotas secretos, precursores de radicais sexuais, profetas do Trabalho Zero. Tal qual outras paisagens monótonas (deserto, mar, pântano), Barrens parece estar de infusão em poder eróticonão tanto vril ou orgone quanto uma desordem lânguida, quase uma sordidez da Natureza, como se o próprio solo e a água fossem formados de carne sexual, membranas, tecido erétil esponjoso. Nós queremos ocupar aquele lugar, talvez uma choupana de caça/pesca abandonada com um velho fogão a carvão e uma latrinaou decadentes Cabanas de Férias em alguma Rodovia Municipal em desuso – ou apenas uma área entre as árvores onde possamos estacionar 2 ou 3 Airstreams escondidos atrás dos pinheiros próximos a um riacho ou piscina natural. Estavam os Kallikaks metidos em algo de bom? Nós descobriremos


em algum lugar, garotos sonham que extraterrestres virão resgatá-los de suas famílias, talvez vaporizando os pais com algum raio alienígena no caminho. Oh, certo. Descoberto Plano de Rapto de Pirata Espacial – "Alien" Desmascarado Como Poeta Viado Fanático Xiita – OVNIs Vistos Sobre Pine Barrens - "Garotos Perdidos Deixarão a Terra", Clama o Assim Chamado Profeta do Caos Hakim Bey


garotos descontrolados, confusão e desordem, êxtase e preguiça, superficialidade, infância como insurreição permanentecoleções de sapos, lesmas, folhas – mijando sob o luar – 11, 12, 13 – velhos o suficiente para retomar o controle de sua própria história das mãos dos pais, da escola, da Previdência Social, da TV – Venha viver conosco em Barrens – cultivaremos uma marca local de corda sem semente para financiar nossas luxúrias e contemplação da alquimia do verão – e, por outro lado, não produzir nada além de artefatos de Terrorismo Poético e mementos de nossos prazeres


sair para passeios sem objetivo na velha pickup, pesca e coleta, deitar na sombra lendo histórias em quadrinhos e comendo uvas – esta é a nossa economia. A peculiaridade das coisas quando desacorrentadas da Lei, cada molécula uma orquídea, cada átomo uma pérola para a consciência atentaeste é o nosso culto. O Airstream é decorado com tapetes persas, o gramado é pródigo em sementes satisfeitas


a
casa da árvore torna-se uma espaçonave de madeira na nudez de julho e da meia-noite, semi-aberta para as estrelas, aquecida com suor epicurista, coberta de junco e então silenciosa pelo respirar de Pines

(Querido Diário Bolo: Você pediu uma utopia prática e factívelaqui está, nada de mera fantasia pós-holocausto, nada de castelos na lua de Júpiterum esquema que podemos começar amanhãexceto pelo fato de que cada um de seus aspectos viola alguma lei, revela algum tabu absoluto na sociedade dos EUA, ameaça o próprio tecido de etc, etc. Muito ruim. Este é o nosso verdadeiro desejo e para alcançá-lo devemos contemplar não somente uma vida de pura arte, mas também de puro crime, pura insurreição. Amém.)


(Agradecimentos a Grim Reaper e
outros membros do Templo Si Fan da Providência por YALU, GANO, SILA e idéias)




COMUNICADO # 3


Discussão sobre Haymarket


"
Preciso somente mencionar de passagem queum curioso reaparecimento da tradição do Peixe-gato no ciclo popular de filmes de Godzilla que surgiu depois do caos nuclear desencadeado sobre o Japão. De fato, os detalhes simbólicos na evolução do folclore popular fílmico de Godzilla assemelham-se, de forma bem surpreendente, com os tradicionais temas mitológicos e folclóricos japoneses e chineses de combate com uma criatura caótica ambivalente (alguns dos filmes, como Mothra, evocam diretamente os antigos temas do ovo / cabaça / casulo cósmico), criatura esta que é geralmente domesticada, após a falha da ordem civilizatória, através da ação indireta e especial de crianças." – Girardot, Mito e Significado no Taoísmo Primitivo: O Tema do Caos (hun-t'un)


Em um velho Templo de Ciência Moura (em Chicago ou Baltimore), um amigo afirmou ter visto um altar secreto no qual repousavam um par de pistolas idênticas (em um estojo forrado de veludo) e um barrete preto. Supostamente, a iniciação para ingressar no círculo secreto requeria que o neófito mouro assassinasse pelo menos um policial. /// E quanto a Louis Lingg? Seria ele o precursor do Anarquismo Ontológico? "Eu desprezo vocês" – não se pode evitar de admirar tais sentimentos. Mas o cara se dinamitou, aos 22 anos, para escapar da forca... esta não é exatamente a trilha que escolhemos. /// A IDÉIA da POLÍCIA como a hidra, que de cada cabeça cortada nascem outras 100 – e todas estas cabeças são policiais vivos. Cortar cabeças não nos traz vitórias, mas apenas aumenta o poder da fera até que ela nos engula. /// Primeiro mate a IDÉIAexplodir o monumento dentro de nós – e então talvez... o poder perderá o equilíbrio. Quando o último policial em nosso cérebro for alvejado pelo último desejo não realizado – talvez até a paisagem à nossa volta comece a mudar... /// O Terrorismo Poético propõe esta sabotagem de arquétipos como a única tática insurrecional prática para o presente. Mas como Xiitas Extremistas ansiosos pela derrota (por quaisquer meios) de toda polícia, aiatolás, banqueiros, carrascos, padres, etc, nós nos reservamos a opção de venerar até mesmos as "falhas" do excesso radical. /// Uns poucos dias desacorrentado do Império das Mentiras pode valer um sacrifício considerável; um momento de realização exaltada pode ser mais importante que uma vida inteira de tédio microcefálico e trabalho. /// Mas este momento deve se tornar nosso – e nosso domínio sobre ele está seriamente comprometido se temos que cometer suicídio para preservar sua integridade. Portanto, misturamos nossa veneração com ironianão é propriamente o martírio que propomos, mas a coragem do dinamitador, o auto-domínio de um monstro Caótico, a obtenção de prazeres criminosos e ilegais.



COMUNICADO # 4


O
Fim do Mundo

A Associação para Anarquia Ontológica declara-se oficialmente entediada com o Fim do Mundo. A versão canônica tem sido utilizada desde 1945 para nos manter encolhidos de medo da Destruição Mútua Garantida e num estado de servidão lamuriosa para com nossos políticos super-heróis (os únicos capazes de manejar a letal Kriptonita Verde)...

O que significa termos inventado uma forma de destruir toda a vida na Terra? Nada de mais. Temos sonhado com isso como uma fuga da contemplação de nossas próprias mortes individuais. Fizemos um emblema para servir como a imagem espelhada de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, nós entramos em êxtase com o pensamento de levar tudo conosco para o Abismo.

A versão não-oficial do Apocalipse envolve uma ânsia lasciva pelo Fim e por um Éden pós-Holocausto onde os Sobrevivencialistas (ou os 144.000 Eleitos do Apocalipse) podem se acabar em orgias de histeria Dualista, intermináveis confrontos finais com um maligno sedutor...

Vimos o fantasma de Rene Guenon, cadavérico e usando um barrete na cabeça (igual a Boris Karloff interpretando Ardis Bey em A Múmia), liderando uma funérea banda de rock No Wave Industrial-Noise, com cantos-de-mosca-negra zumbindo alto pela morte da Cultura e do Cosmos: o fetichismo elitista de niilistas patéticos, a auto-repugnância Gnóstica de intelectualóides "pós-sexuais".

Não seriam essas lúgubres baladas simplesmente imagens espelhadas de todas as mentiras e chavões sobre o Progresso e o Futuro, irradiados de cada auto-falante, disparados como ondas cerebrais paranóicas de cada livro escolar e TV no mundo do Consenso? A tanatose dos Milenaristas Hip expele-se, como se fosse pus, da falsa saúde dos Paraísos dos Consumidores e Trabalhadores.

Qualquer um que consiga ler a História com os dois hemisférios do cérebro sabe que um mundo acaba a todo instante – as ondas de tempo apenas deixam um rastro de memórias secas de um passado fechado e petrificado – memória imperfeita, ela mesma morrendo, outonal. E cada instante também faz nascer um mundonão obstante os sofismas de filósofos e cientistas cujos corpos tornaram-se dormentesum presente no qual todas as impossibilidades são renovadas, onde arrependimento e premonição desvanecem até o nada em um gesto psicomântrico hologramático presencial.

O passado "normativo" ou o futuro de dissipação de calor do universo significam tão pouco para nós como o GNP do ano passado, ou o definhamento do Estado. Todos os passados Ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem nossa consciência da presença vívida total.

Certas seitas acreditam que o mundo (ou "um" mundo) acabou. Para as Testemunhas de Jeová, aconteceu em 1914 (sim, pessoal, estamos vivendo no Livro do Apocalipse agora). Para certos ocultistas orientais, ocorreu durante a Grande Conjunção dos Planetas em 1962. Joachim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do Espírito Santo, que substituiu a do Pai e a do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurreição, a imanentização do eschaton, o paraíso na terra. O tempo profano chegou ao fim em algum lugar do final da Idade Média. Desde então, estamos vivendo o tempo angelical que a maioria de nós não sabe.

Ou para usar um exemplo ainda mais Monista Radical: o Tempo nunca começou. O Caos nunca morreu. O Império nunca foi fundado. Não somos e nunca fomos escravos do passado ou reféns do futuro.

Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado fait accompli; a data exata não é importante. Os ranters em 1650 sabiam que o Milênio chegaria imediatamente a cada alma que despertasse para si própria, para sua própria centralidade e divindade. "Alegre-se, criatura companheira", era sua saudação. "Tudo é de todos!"

Não quero tomar parte em nenhum outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim na rua. Um corvo preto pousa em uma árvore de magnólias rosas, crocitando enquanto o orgone se acumula e se descarrega num segundo sobre a cidade... o verão começa. Posso ser seu amante... mas cuspo no seu Milênio.




COMUNICADO # 5


"
Sadomasoquismo Intelectual é o Fascismo dos Anos 80 – A Vanguarda Come Merda e Adora"



CAMARADAS!

Recentemente uma confusão sobre "Caos" empesteou a Associação para Anarquia Ontológica com certos setores revanchistas, nos forçando (nós, que desprezamos polêmicas), afinal, a ter indulgência numa Sessão Plenária
destinada a
denúncias ex cathedra, solenes como o inferno; nossos rostos vermelhos e queimados com a retórica, o cuspe voa de nossos lábios, as veias do pescoço incham com o fervor do púlpito. Devemos, enfim, agitar faixas esvoaçantes com frases raivosas (em estilo anos 1930) declarando o que a Anarquia Ontológica não é.

Lembrem-se, apenas na Física Clássica o Caos tem algo a ver com entropia, dissipação de calor, ou decadência. Na nossa física (Teoria do Caos), o Caos identifica-se com o tao, indo além do yin-como-entropia e do yang-como-energia, mais um princípio de criação contínua do que de qualquer nihil, vazio no sentido de potentia, não exaustão. (Caos como a "soma de todas as ordens.").

Desta alquimia, nós quintessencializamos uma teoria estética. Arte caota pode agir de forma terrífica, pode até mesmo agir como grand guignol, mas não pode nunca se permitir encharcar em negatividade pútrida, em tanatose, em schadenfreude (deleite com o sofrimento alheio), cantando em voz baixa sobre memorabilia nazista e assassinatos em série. A Anarquia Ontológica não coleciona filmes snuff e está entediada até as lágrimas com dominatrizes que declamam filosofia francesa. ("Nãoesperança e eu sabia disso antes de você, idiota. Niahh!").

Wilhem Reich foi levado à semi-loucura e assassinado por agentes da Peste Emocional; talvez metade do seu trabalho derive da mais pura paranóia (conspirações de OVNI, homofobia, até mesmo sua teoria do orgasmo), MAS em um ponto concordamos sinceramentesexpol: repressão sexual gera obsessão pela morte, que conduz a uma péssima política. Uma grande quantidade de Arte de vanguarda está saturada com os Raios Orgone Mortais (ROM). A Anarquia Ontológica tem por objetivo construir destruidores estéticos de nuvens (armas de raios de orgone) para dispersar o miasma de sadomasoquismo cerebral que ora passa por engenhoso, hip, novo, na moda. Artistas auto-mutiladores "performáticos" nos atingem de forma banal e estúpida – a arte deles deixa todos mais infelizes. Que tipo de bosta
trivial conivente... que tipo de rastejadores artísticos com cérebro de barata prepararam essa mistura apocalíptica?

É claro que a vanguarda parece "esperta" – Marinetti e os Futuristas também pareceram, assim como Pound e Celine. Comparado com esse tipo de inteligência, nós escolheríamos estupidez de verdade, a inanição feliz e bucólica da Nova Eramelhor sermos palermas do que nos arruinarmos pela morte. Mas felizmente não temos que extrair nossos cérebros com uma colher para obtermos nossa própria marca de satori. Todas as faculdades, todos os sentidos nos pertencem como nossa propriedadecoração e mente, intelecto e espírito, corpo e alma. Nossa não é a arte da mutilação, mas a arte do excesso